A rotina do imprevisto

Às vezes tenho saudades do tempo em que estava preso. Não se trata do mesmo tipo saudade que tenho daqueles que desapareceram da minha vida. Eu diria que tenho saudades daquilo que a falta de liberdade me proporcionava — e sim, tenho plena noção do quão contraditória é esta afirmação — e não de estar preso.

Apesar de, tecnicamente, a minha vivência atrás das grades nunca ter acontecido, guardo a memória desses tempos e revisito-a com frequência para tentar perceber qual das duas vidas teria feito mais sentido. O que teria sido melhor (ou o que foi melhor?, visto que estou na posição rara de poder comparar o que foi com o que poderia ter sido) para mim como pessoa, como autor? Estar atrás das grades não me prejudicou muito como autor, pela simples razão de que dediquei pouco ou nenhum tempo à criação e mais à contrição. Hoje sei que não foi o Destino, ou as minhas acções que me colocaram ali; na altura não sabia e acreditava que estava a pagar pelos meus actos.

O facto do passado ter sido alterado não o apagou por completo. Mesmo que não estivesse ciente de todas as modificações, acredito que perceberia que algo estava diferente, ainda que não soubesse precisar exactamente o quê. É como passar corrector sobre um texto. As palavras continuam lá, não desaparecem. Por muito que queira (e às vezes quero muito) não posso fazer de conta que esses tempos não existiram. Mesmo que já só tenham existido para mim.

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Como pessoa, eu diria que o ganho foi pleno. Estar privado de liberdade, sujeito aos horários e à disciplina prisionais, quase que precisando de permissão para ir à casa de banho, longe do mundo e das pessoas, não era, ao contrário do que se possa pensar, estar privado de tudo. Dentro dessa rotina constante havia larga margem para o imprevisto. O melhor exemplo disso, creio eu, era acordar todas as manhãs com a sensação de que poderia não chegar vivo ao fim do dia. Descrita desta forma, a expectativa da morte iminente acaba por tornar-se mais um factor de rotina do que de imprevisto. Não deixa de ser verdade isso, mas eu prefiro olhar para esta situação (e outras tantas) pelo lado da imprevisibilidade: sei que vão acontecer, só não sei quando. Não é muito diferente do que acontece quando não se está preso. Todos os dias podem ser o ultimo, mas quando se junta a essa inevitabilidade a privação de liberdade, há uma tendência natural para apreciar as pequenas coisas do dia a dia. Aprende-se a dar valor ao que se tem, a estimar o que se pode perder.

Às vezes tenho saudades do tempo em que estava preso. Do mesmo modo que tenho saudades de regressar à terra que me viu nascer. (O tempo e o espaço são sempre indissociáveis.) Não é uma saudade que queira ver concretizada. Talvez por não ser bem saudade aquilo que sinto, mas sim gratidão por aquilo que representaram na minha vida.

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