A escuridão em nós: um excerto

«Rita apercebeu-se de que as batidas na porta tinham cessado e puxou o lençol para cima. Não desaparecera a sensação de frio na espinha que sentira ao não dizer a Daniel que não saísse do quarto. Nem mesmo depois de ter vestido a camisola. Parecia que a noite tinha ficado maus fria, embora ela soubesse que tal não era o caso. Ansiosa, esperou alguns segundos, talvez minutos, antes de decidir começar a chamar por Daniel.Em momento algum aventou a hipótese de sair do quarto e ir ver o que se passava. Não sabia se essa hesitação era pelo que poderia descobrir, se pela antecipação dessa descoberta.

Ao fim de um silêncio cuja duração não sabia precisar, alguém bateu à porta do quarto. A mente de Rita apressou-se a equacionar as várias hipóteses possíveis. Se fosse Daniel, não havia razão nenhuma para estar a bater à porta; a não ser que estivesse acompanhado, e aí a batida seria uma forma de avisá-la que se deveria compôr. Mas quem seria essa pessoa e o que teria de tão importante que fosse capaz de convencer Daniel a pôr as suas hormonas em pausa?

Daniel não a trocaria por um incêndio.

Depressa começou a temer o pior, o coração palpitando num ritmo frenético, bombeando sangue sem parar, o frio espalhando-se por todo o corpo, intensificando-se. Tão depressa começou como depressa terminou — bastaram só quatro palavras:

«Rita, abre a porta.»

A voz era de Daniel, mas havia qualquer coisa nela que parecia diferente. Não fossem os anos que estavam juntos, não o conhecendo ela como o conhecia, teria aberto a porta sem hesitar. Puxou os joelhos para cima, encostou a cabeça e tapou os ouvidos. Esperava que do outro lado começassem a bater à porta num ritmo incessante, porém nada aconteceu.

Do outro lado, silêncio absoluto e paciência infinita.

«Querida… Sou eu.»

Não, não era. E a certeza disso era tanta que Rita deixou escapar algumas lágrimas antes de se forçar a levantar o rabo da cama e começar-se a vestir. Vestiu umas calças de ganga e um casaco por cima do pijama; calçou os ténis de Daniel porque os seus tinham ficado na sala. Dirigiu-se para a janela e soltou o trinco quando uma dúvida a fez parar: porque é que Daniel não abria a porta se esta não estava trancada?

Afastou-se da janela e encostou o ouvido à porta. Não conseguia ouvir nada além dos habituais sons de uma casa velha. Espreitou pela fechadura e viu Daniel e uma outra figura que não conseguia identificar — ambos especados, como estátuas vivas. Olhou para a janela e viu uma nuvem de escuridão cobrir o vidro. Percebeu que por ali não havia hipótese de fuga. Restava-lhe ficar ali e esperar que a deixassem em paz.

Ou então abrir a porta.

Agarrou no trinco, fechou os olhos e inspirou fundo, tentando convencer-se que era mesmo o seu namorado que estava no outro lado. Soltou o ar que tinha nos pulmões, rodou o trinco e abriu a porta.

À sua espera estavam Daniel e alguém que ela reconheceu como sendo o vizinho da casa no cimo do monte — o maluco, como o seu Daniel (não aquele) lhe costumava chamar. Ambos sorriram assim que ela apareceu. Sorriso falso e frio como o olhar.

Rita arrependeu-se de imediato de ter aberto a porta, mas era tarde demais para alterar isso. As duas figuras à sua frente abriram as suas bocas e a escuridão que espreitava pela janela depressa passou a fazer parte dela.

─ in A Escuridão em Nós

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