O início da escuridão

A ESCURIDÃO EM NÓS será talvez a minha última história, antes de mergulhar de cabeça no projecto INTERSECÇÕES. Começa assim:

 

«O silêncio era a única companhia que restava a Jerónimo. O silêncio e a paisagem, que um dia acabaria por desaparecer, levada por uma visão que os anos insistiam em deteriorar.

A sua casita no meio do monte, afastada de tudo e de todos, chegava à justa para o albergar. Quase não tinha visitas e, quando as tinha, elas não tinham por hábito ficar. Não era mau anfitrião, apenas não oferecia nada que não lhe fosse pedido. Talvez por isso vivesse sozinho. Talvez. Durante muitos anos só com uma televisão por companhia; agora nem isso. Poucos meses antes alguém tivera a brilhante ideia de desligar o sinal analógico, pondo assim fim a um dos poucos prazeres a que Jerónimo se permitia.

Era verdade que ainda tinha o rádio. Só que não era a mesma coisa. Aliás, eram coisas bem distintas. O rádio trazia-lhe vozes, alguma companhia, sem dúvida, mas não lhe trazia rostos, locais ou momentos. Incapaz de sair dali, tanto pela sua condição física como por não querer sair mesmo, a televisão era única forma de se manter em contacto com o mundo exterior.

O máximo que Jerónimo conseguia e podia fazer era sentar-se no alpendre, olhar para o vale, para as casas que se avistavam ao longe – algumas com pessoas que ele conhecia, a maior parte abandonadas – e deixar que a sua memória colaborasse com a sua imaginação. Às vezes servia-se do auxílio de uma garrafa de vinho para intensificar e incentivar os filmes que a sua mente criava. O resultado final dependia sempre do seu estado de espírito. Se estivesse bem-disposto ou deprimido produzia uma comédia ou um drama.

Naquela noite sentia-se assustado consigo mesmo por não saber o que faria se um dia se fartasse de tudo. O isolamento afectava-lhe o julgamento, porém nem sempre: havia alturas em que Jerónimo quase que se via a falar sozinho, a ver coisas que sabia não estarem lá. Estava com medo. Por isso não foi surpresa nenhuma quando a sua imaginação começou a produzir imagens que pareciam retiradas de um autêntico filme de terror.

No início não deu por nada. A escuridão ajudou a camuflar o aparecimento e aproximação das criaturas até ser tarde demais. Não que se fosse de dia ele tivesse dado por elas de tão furtivas que eram. O mais certo seria só se aperceber da sua presença se estivessem em grande número — em quantidades pequenas não eram mais visíveis que pó soprado de um dente de leão.

Jerónimo teve tempo para essas considerações, mas não para perceber o que fazer com elas. A identificação de um problema não pressupunha a sua imediata resolução, costumava dizer um comentador da actualidade no tempo em que o TDT não lhe havia roubado parte da sua vida.

Sentiu um formigueiro dentro e fora do corpo quando as criaturas começaram a subir-lhe pelas pernas, pelos braços, pelo tronco, em direcção às vias respiratórias. Tentou fugir, tentou sacudi-las, mas era como tentar sacudir vapor. Despiu a camisola e viu com horror a aproximação rápida que faziam à sua boca e nariz. Tapou-os com as mãos, sabendo que não aguentaria assim durante muito tempo. Mais tarde ou mais cedo precisaria de respirar.

As criaturas, demasiado impacientes para esperar, avançaram, galgaram as mãos e mergulharam para dentro dos olhos de Jerónimo. Este tentou fechar as pálpebras e descobriu-se incapaz de o fazer.

Os olhos são as janelas da alma, lembrava-se de ter lido algures — foi o último pensamento que teve antes de tombar no chão do alpendre. A noite permaneceu silenciosa, interrompida pelo som dos grilos e outra bicharada nocturna. A isso se juntou, pouco depois, um ranger de madeira velha.

Jerónimo ergueu-se, olhou para o vale com um olhar que já não era seu, e começou a descer.»

Gostaram muito, pouco ou nem por isso? Digam de vossa justiça.

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