QUERIDO, ESTÁS MORTO

Querido, estás morto (JDM-C) - Capa

 

 

Eis um conto cómico que espero que vos faça rir, caso contrário será apenas um conto. De qualquer forma, depois de lerem, não se esqueçam de comentar.

 

QUERIDO, ESTÁS MORTO

um conto de João Dias Martins

 

Uma boa história de acção deve começar com uma frase que capture logo a atenção do leitor. Só por aqui já se vê que esta não será uma história de acção. Resta ver se será uma boa história. Com estes enrolanços todos, tenho as minhas dúvidas.

A nossa história começa com o senhor Henrique Viegas. Chama-se a isto apresentar o personagem e, dizem os entendidos, é algo que deve ser bem feito. (Como se houvesse algo que devesse ser mal feito.) Na verdade, Henrique Viegas não gostava de ser tratado por senhor. Por isso, daqui por diante, tratá-lo-ei só por Henrique ou Quicas.

Para Henrique acordar, sair de casa, ir trabalhar, regressar a casa, jantar com a família, passar o serão a ver os programas da noite e dormir era o pão seu de cada dia. Todos os dias, com a excepção sagrada do fim de semana e feriados, que eram dedicados a ler o jornal e a organizar a sua colecção de filatelia, lá ia e vinha ele. Sempre no mesmo ritmo. Foi e veio no dia 24 de Junho. Foi e veio no dia 25 de Junho. No dia 26 foi, mas…

Estava tão habituado à sua rotina diária, que nada lhe conseguia perturbar o ritmo. Várias vezes os amigos e familiares ouviram-no gabar-se disso, mas nunca imaginaram até que ponto ele levava essas palavras a sério. Nessa quarta-feira, no regresso a casa, conjugaram-se três factores que tornaram esse dia diferente de todos os outros: um sinal verde que abriu antes do tempo, um motorista de autocarro distraído com o novo telemóvel e um Henrique vinte minutos mais tarde que o habitual depois de ter passado numa perfumaria para comprar uma prenda para o aniversário de Isabel. (Isabel era a esposa. Faltava dizer isso. É no que dão as histórias mal planeadas.)

Ao chegar a casa, foi recebido por Isabel. Por mais anos que passassem, por mais que se habituasse ao seu rosto, achava-a sempre a mulher mais bela do mundo. Estava prestes a beijá-la quando ela soltou um grito de puro terror.

“O que se passa, querida?”

“Tu… tu…”

“Estou atrasado, eu sei.” Henrique olhou para a sua roupa e reparou numa mancha branca no ombro do casaco. “Malditos pombos. Já é a segunda vez esta semana.” Tirando o casaco, passou-o à esposa, que continuava sem conseguir dizer nada de jeito. “Pões-me isto para lavar, querida?”

“Q-qq–”

E beijando-a na face com ternura disse: “Eu também gosto muito de ti .”

Pois é. O Quicas era um homem tão dedicado e comprometido com a sua rotina diária que que nada o fazia parar. Nem mesmo o facto de estar morto.

Henrique seguiu para a sala de estar onde os seus filhos, Renato de seis e Afonso de dez anos, viam os desenhos animados de fim de tarde. Como de costume, saudou-os com um “Então rapaziada?”

Até ao dia anterior, e em todos os outros antes desse, assim que ouviam a voz do pai, os filhos corriam para os seus braços. Naquele dia, ao verem o estado do pai, encolheram-se a um canto do sofá e taparam-se com almofadas, tentando proteger-se o melhor que podiam. Que visão horrível! Nem mesmo quando se mascarara de troll o pai lhes parecera tão horrendo.

“Ai querem brincar às escondidas, é?”

Henrique avançou sorridente, de braços abertos, e foi quanto bastou para os miúdos saltarem do sofá e correrem para fora da sala de estar, em busca de protecção materna. “Mãeeee! Mãeeee!”

“Afinal é à apanhada. Estes miúdos não se decidem”, desabafou Henrique antes de partir no encalço deles em corrida lenta. “Eu já vos apanho!”

Nisto, chegou Isabel, de avental posto e colher de pau em riste. (Triste expressão, eu sei, mas era assim que ela estava.) “Mas que gritaria vem a ser esta?”

Quem falou foi Afonso. “É o pai! Ele… Ele…”

“O vosso pai teve um dia muito longo e está muito cansado para andar metido em correrias. Vão mas é lavar as mãos que o jantar está quase pronto.”

“Mas ele…”

“Mas nada. Vá!”

“Façam o que a vossa mãe diz.”

“Tu também. Lavar as mãos e mesa.”

–º–

Na casa de banho, ignorando que a cada esfregadela caía um pedaço de carne das mãos, Henrique certificava-se que os filhos usavam o sabonete em vez de só passarem as mãos por água como era costume. Com os miúdos era preciso estar sempre atento. E com aqueles dois ainda mais.

“Esfreguem bem entre os dedos.”

Incapaz de olhar para o pai, Renato falou para o irmão. “O pai tem um cheiro estranho.”

“Menos conversa e mais lavagem”, retorquiu Henrique. E sorriu. Era uma bela frase para um anúncio de detergente. Era pena ele ser funcionário de repartição. Opções de vida. Ainda assim continuava a ser uma boa frase.

Lavadas as mãos, seguiram para a sala. O pai à frente, os filhos atrás, um pouco menos assustados, mas ainda incomodados com o mau cheiro. Como se tal não bastasse, começavam a aparecer as moscas. Atraídas pelo cheiro a podre, rondavam Henrique como um fã obcecado ronda a sua estrela musical favorita. Se assim já era mau, como seria quando começassem a depositar os seus ovos dentro de Henrique, transformando-o numa incubadora viva? Viva, salvo seja.

Isso ficaria para depois. Antes disso, ainda havia tempo para jantar. Naquela noite, por sorte, esse tempo seria menos que o habitual porque Isabel fizera croquetes com arroz branco e salada. Era quase só meter à boca e engolir. Para dizer a verdade, não era e ela bem que dizia aos filhos para mastigarem antes de engolirem, só que eles não faziam caso. Aliás, naquela noite, até ela fez o que repreendia os filhos por fazerem. Não podia dizer com certeza, mas era capaz de jurar que faria o mesmo se tivesse fritado peixe, prato que era um autêntico martírio para os mais novos da casa.

Sentaram-se os quatro à mesa e Isabel distribuiu a comida pelos quatro pratos. Ainda pensou na necessidade de servir Henrique mas, até ele se aperceber da sua condição actual, achou que era preferível manter tudo na normalidade. Sabia-se lá o que um choque desses lhe poderia causar. Ainda morria outra vez e ela não queria isso. Principalmente se ele tornasse a não dar conta disso.

“Não se pode com estas moscas! Vou abrir uma janela.”

Ignorando as moscas e a alusão às mesmas, Henrique pôs a mão no ombro de Afonso e perguntou-lhe: “E tu filho, que fizeste hoje?”

Tentando falar, apesar do cheiro cada vez mais nauseabundo, Afonso disse apenas: “Nada de mais.” Três palavras que lhe trouxeram mais lágrimas aos olhos do que o pior castigo que já recebera. Uma semana sem consola tinha sido duro, duas semanas sem comer gelado também. Pensava ele. Agora percebia que isso não tinha sido nada.

“E tu, Renato?”

Menos resistente do que o irmão, Renato só conseguiu encolher os ombros, esperando que isso chegasse como resposta. Quase que desejava que a mãe tivesse fritado peixe para o jantar, convencido de que seria impossível duas situações tão más ocorrerem em simultâneo.

Isabel, temendo que o silêncio de Renato não chegasse para satisfazer a curiosidade do marido, prontamente perguntou: “Gelado, alguém quer?”

Todos levantaram o braço. Infelizmente, o rigor mortis já se começara a instalar em Henrique e esse movimento brusco deixou-lhe o braço esquerdo suspenso por fiapos de carne. Nada que ele notasse, só que se o braço caísse quando ele estivesse a tentar desentupir uma sanita, seria chato.

Após a refeição seguiu-se o rotineiro momento familiar em frente à televisão. Sentindo-se romântico, Henrique tentava pôr o braço por cima dos ombros da esposa, só que não conseguia. Era como se algo lhe prendesse os movimentos. Sempre mantendo a calma, girou o braço e, com jeito, lá conseguiu pô-lo na posição desejada. Isabel tremeu um bocadinho quando sentiu o braço do marido cair sobre ela, mas nada disse e Henrique nada perguntou.

Às nove e vinte da noite os miúdos foram para a cama. Ficaram os dois no sofá, bem encostadinhos. Demasiado encostadinhos para o que Isabel teria preferido naquele momento. Quis o Destino, ou o Azar, que Henrique designasse aquela noite para se dedicar a momentos de intenso prazer, conforme viria a propôr mais tarde. Proposta que ela declinaria.

“Então, querida? O que foi agora? Eu vi o calendário! A fase da pinga já passou.”

“Não é isso.”

“É a cabeça? Outra vez com essa desculpa? Irra que vocês é sempre a mesma coisa!”

“Vocês?!”

“É uma força de expressão.”

“Eu te dou a expressão!”

“Então se não é cabeça é o quê, hã?! Ou queres que fique o resto da noite a tentar adivinhar?”

Era chegado o momento de lhe dizer a verdade. Estava visto que Henrique não iria chegar lá sozinho. Fosse porque não conseguia, fosse porque não queria, tornara-se óbvio que teria de ser ela a dizer-lhe. Assim, respirou fundou, acendeu a luz do candeeiro da sua mesa de cabeceira, olhou para ele e começou. “Querido… Eu preciso de te contar algo.”

Henrique acendeu o candeeiro da sua mesa de cabeceira e com esse gesto lá ficou a mão esquerda dependurada por tiras de pele e carne ressequida. “Sim?”

“Acho que não há forma certa de dizer isto…”

Antecipando o pior, Henrique fechou os olhos e suspirou: “Tens um amante. Eu sabia.”

“Com—? Não. Não tenho nada um amante. ‘Tás parvo ou quê?”

“Se não é isso, então é o quê?”

Isabel respirou fundo e disse por fim. “Querido, tu estás morto.”

Fez-se silêncio. Por momentos ninguém disse nada. De repente, Henrique libertou uma sonora gargalhada. “Quase que me apanhavas! ‘Tá boa essa! Agora a sério, o que é que se passa contigo?”

“Comigo não se passa nada. Tu é que estás morto.”

“E ela a dar-lhe. Isabelinha, é quase uma da manhã. Não é altura para brincadeiras parvas.”

Isabel olhou-o nos olhos e falou, num tom que não deixava margem para dúvidas quanto à seriedade: “Henrique, eu não estou a brincar. Tu estás morto.”

Só então ele olhou para as mãos – das quais, uma estava agarrada ao interruptor do candeeiro na sua mesa de cabeceira – e reparou na putrefacção que o seu corpo sofrera. “Estou… morto?”

Isabel acenou e aguardou que o marido aceitasse a sua nova condição. O que ele fez.

“Pronto. Estou morto. Continuo sem perceber qual é o problema.”

“N-não… quê?! Como não?”

“Para mim, isto não muda nada. Continuo a achar-te muito atraente.”

“O problema não é eu ser atraente. É tu estares morto. Nós não podemos… Entendes?”

“O padre Dionísio disse que ficaríamos juntos até que a morte nos separasse.”

“Pois disse.”

“Mas pelos vistos a morte não nos separou.”

“Pelos vistos, não.”

“Que fazemos então?”

–º–

“No fundo é isto, senhor padre”, concluiu Henrique.

O padre Dionísio permanecera calado durante toda a explicação. Fora bastante bem educado ao não interromper o testemunho, mas agora estava na altura de lhe ouvirem a voz.

“Padre Dionísio, sente-se bem?” perguntou Isabel.

Agachado debaixo da secretária, o padre Dionísio segurava no terço com fervor e rezava. No curso não lhe tinham ensinado nada daquilo. Um está vivo, o outro também, casam-se, um deles morre, o outro enviúva. Era assim que lhe tinham ensinado. Era assim que devia ser. Não havia ses. Suspirou. Tinha de fazer qualquer coisa. Ficar ali agachado até eles se irem embora não iria adiantar nada. Já para não falar da péssima imagem que daria, tanto de si como da magna instituição que representava. Respirou fundo três vezes, duas vezes a mais do que o necessário só para fazer tempo, levantou-se e acomodou-se na sua cadeira.

Ajeitou o colarinho, mexendo e remexendo os dedos enquanto falava, evitando olhar para Henrique e Isabel. Não que lhe custasse olhar para ela; embora não estivesse ciente da existência de regras de etiqueta para conversações com defuntos, achava que não seria um gesto apropriado olhar para ela e não olhar para ele. “Confesso que é a primeira vez que oiço falar de um caso assim.”

“Não sabemos o que fazer, senhor padre”, disse Isabel.

“Pois. Acredito que não. E não é para menos.”

“O que nos aconselha?” perguntou Henrique. “Eu amo a minha esposa e não me quero separar dela.”

O padre rezou dois Pais Nossos na sua cabeça e olhou para Henrique. “Estou a perceber.” Virando-se para Isabel, perguntou: “E você? Quais são os seus sentimentos em relação a isto?”

“Bem… eu… confesso que de início fiquei assustada.” Uma breve pausa e continuou. “Um pouco agoniada, até.” Olhando para Henrique disse: “Não leves a mal, querido.” Continuou. “Mas depois… habituei-me. Falámos no carro quando vínhamos para aqui e ontem à noite apercebi-me que continuo a amá-lo. Nada mudou quanto aos nossos sentimentos, só que… Ele sabe que já não me pode dar a «atenção» que antes dava. Só que eu não sou capaz de ir ter com outro homem. É como se o estivesse a trair. Por um lado, ele está morto e eu posso fazer o que bem entender. Por outro lado… Entende o que eu estou a dizer?”

“Este é sem dúvida um caso sem precedentes, mas acredito que possa ser resolvido. Não por mim, claro. Creio que este assunto tem de ser levado a Roma.”

“Senhor padre, nós não temos dinheiro para ir a Roma”, queixou-se Henrique. “Essa é outra. Já não estou em condições de trabalhar, mas o médico não me quer passar a certidão de óbito.”

“E sem certidão, não há pensão”, completou Isabel.

“Será que não podia dar uma palavrinha a nosso favor?”

“Poder, claro que posso, mas dizer o quê? Eu próprio ainda não sei o que dizer de tudo isto!”

O padre tirou um lenço para limpar o suor que lhe escorria da testa. Colocou o lenço no bolso e levantou-se. Caminhou até à janela e abriu-a, fingindo admirar a paisagem cinzenta que dali se vislumbrava, quando o que ele queria mesmo era deixar que o cheiro a podre abandonasse o local. Henrique continuava a ser um bom homem, mas o cheiro. Meu Deus, o cheiro.

Arejada a sala, fechou a janela, deu meia volta e regressou à secretária. “Dêem-me três dias. Vou fazer uns telefonemas e ver o que posso fazer para resolver o vosso problema.”

“Três dias”, repetiu Isabel “Obrigada, senhor padre.”

Isabel estendeu a mão para se despedir do padre. O aperto foi suave, o ideal quando se cumprimenta uma senhora. Seguiu-se Henrique. Dionísio não podia negar o minímo de cortesia a um casal que passava por uma fase tão complicada da sua vida. Com cuidado, deu só um ligeiro apertão. O bastante para ficar com a ponta do dedo mindinho direito na mão.

Já habituada, Isabel pegou na ponta do dedo e colocou-o num frasco da sua bolsa, onde se encontravam guardados outros tantos pedaços caídos ou arrancados do corpo de Henrique. “Não se rale.” Virou-se para Henrique e repreendeu-o. “Já não te disse para não cumprimentares as pessoas com apertos de mão? Qualquer dia ficas sem dedos e depois quero ver como é que fazes!”

“Sim, querida. Pois, querida”, respondeu Henrique num tom de voz de quem está farto de ouvir sempre as mesmas recomendações.

“Ele agora anda cá com um feitio, senhor padre! Mais parece um miúdo pequeno.”

–º–

Isabel não era a única a queixar-se da crescente e alarmante infantilidade do marido. Era um facto bem comprovado por todos ao seu redor: depois de morto, Henrique passara a comportar-se como uma criança. O que até seria queriducho e fofo, se não fosse, mais que qualquer outra coisa, irritante. Na sua juventude, Isabel passara muito tempo lendo histórias de fantasmas que se limitavam a assustar ou a pregar partidas. Ela bem que gostaria de acreditar que essas histórias de fantasmas que haviam povoado a sua infância e juventude não passavam disso mesmo, mas vendo o comportamento de Henrique não hesitava em admitir que podia estar enganada. Seria esse um traço comum a todos os mortos? Ou seria que, após uma vida inteira de responsabilidades e deveres e obrigações e rotina e horários a cumprir, Henrique estava por fim livre para se expressar como sempre desejara? Livre de consequências, o que o impedia de fazer o que bem lhe apetecesse?

Nada. Nada, excepto as Leis da Física e as leis da Biologia. Henrique não conseguia mover objectos ou atravessar paredes, nem nada daquilo que as gentes acreditavam ser acções vulgares de um qualquer fantasma. Também não conseguia evitar a decomposição do seu corpo e isso era, porventura, o mais chato. “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”, dizia ele, de vez em quando, citando o poeta. Neste caso não importava o número de tentativas ou o modo como se olhasse para a coisa – o entranhamento era sempre algo que se procurava evitar a todo o custo.

–º–

Os três dias passaram e, tal como havia dito, o padre ligou. Isabel pegou no tronco e cabeça do marido – os braços e parte das pernas tinham caído porque ele tivera a brilhante ideia de acompanhar os exercícios de um vídeo de fitness – e lá foram ao encontro. De novo sentados perante o padre Dionísio, escutaram as suas palavras com atenção. Isabel interrompeu-o aqui e ali para breves esclarecimentos; Henrique, cuja língua estava ressequida pela falta de líquidos, manteve-se em silêncio durante toda a conversa. Por fim, o padre concluiu: “Por isso, de acordo com o que vos acabei de dizer, o Henrique não está morto.”

“Devo ter percebido mal”, comentou Isabel. “É capaz de repetir?”

“É como eu digo, o Henrique não está morto.”

“Não está morto? Então está o quê?”

“Bom, se não está morto, só pode estar vivo.”

“Por amor de Deus! Ele é cabeça e tronco! Como é que pode dizer que está vivo?”

Em resposta à dúvida de Isabel, o padre Dionísio abriu a primeira gaveta da secretária e tirou de lá um livro volumoso de folhas velhas e amarelecidas. Soprou o pó e abriu o livro onde se encontrava um marcador duma saga de livros de vampiros com sentimentos. Sem que ninguém lhe perguntasse, justificou: “É da minha sobrinha” Aclarou a garganta. “Está tudo aqui. Oiçam. «Alguém vivo é capaz de falar, ouvir, ver e mexer os os olhos.»” Virou-se para Henrique. “Senhor Henrique, é capaz de me piscar os olhos?” Henrique piscou o olho direito, a pálpebra caiu e o padre continuou a ler. “«Sempre que alguém não é capaz de fazer pelo menos uma destas coisas é porque está morto»” Fechou o livro e tornou a guardá-lo na gaveta. “Entendidos?”

“E a decomposição? Como explica isso?”

O padre encolheu os ombros e palpitou: “Alergia ao gel de banho?”

Irritada, Isabel bateu com o punho na mesa. “Isto não é nenhuma alergia!”

“Pode ser psoríase ou assim. A minha prima tem um namorado que é dermatologis–”

“Ó senhor padre, desculpe lá, mas o senhor não deve estar bom da cabeça!”

“Dona Isabel, não quero ofender ninguém, mas você é que anda por aí a passear meio marido.” Sorriu. “Ao menos, agora já sabemos que o Henrique está vivo.”

“O Henrique está morto! Morto!”

Sem esperar por resposta, Isabel pegou em Henrique e saiu do escritório, fechando a porta com um estrondo tão forte que os vidros da janela estremeceram.

–º–

A última porta para as respostas que tanto procuravam tinha-se fechado. Onde iriam agora buscar ajuda? A outra religião? Estava visto que onde quer que fossem, seria «vira o disco e toca mais ou menos o mesmo». Médicos? Tinham feito dezenas de exames, talvez mais, e todos os resultados confirmavam que Henrique não estava morto. O problema era que também não confirmavam que ele estava vivo e esse era o paradoxo sem solução aparente que os atormentava.

Seria Henrique imortal? Seria ele incapaz de perecer enquanto houvesse o mínimo de carne para abrigar o seu espírito? Se o espírito fosse uma coisinha minúscula, alojada no cérebro, estaria este em condições de controlar minimamente o corpo e manifestar sinais de vida? Talvez nas outras pessoas o espírito estivesse alojado em outras zonas; zonas que, caso lesionadas ou removidas, provocavam a morte. Alguém com o espírito no rim, faz uma doação e…. Embora fizesse algum sentido, era uma hipótese tão louca como a situação à qual se tentava aplicá-la.

Não havia como saber se alguma destas hipóteses era verdade ou não. Desde o momento em que ganhou consciência de si mesmo e da sua mortalidade, que o Homem tem procurado saber o que acontece depois da morte. Se tivessem perguntado a Henrique antes de lhe terem caído os lábios, ele teria uma palavra para descrever o seu actual estado: monotonia. Só era pena já não poder responder.

 

FIM

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