Câmara dos Horrores – um excerto

Câmara dos Horrores (JDM-R) - Capa«O relógio batia a um ritmo mais acelerado. Tão acelerado como o coração de Carla Ferreira. O que não fazia qualquer sentido. Era impressão sua. Só podia ser. O tempo era uma inconstante inviolável. O relógio não batia mais depressa ou mais devagar. Era a sua percepção da passagem do tempo que estava alterada.
E não era para menos.
Escassas horas antes, o seu captor—um desconhecido que parecia querer vingança por algo que ela sabia e jurava não ter feito—amputara-lhe o braço esquerdo. Carla chorara, implorara—acções sem significado ou consequência perante o sangue-frio que aquele homem demonstrava ter.
Uma ténue esperança surgiu quando ele se aproximou dela com uma seringa contendo um líquido esverdeado. Não sabia que substância era. Queria acreditar que era uma anestesia e que, qualquer que fosse a atrocidade a que fosse ser submetida, não teria de suportar essa dor acordada.
O líquido foi injectado no seu sistema sanguíneo e ambos aguardaram até que este fizesse efeito. Para testar se ela já estava pronta, o seu carniceiro pegou num bisturi e efectuou um corte na palma da sua mão esquerda. Ela sentiu a lâmina afiada cortar-lhe a carne da palma da mão e compreendeu que não fora uma anestesia e sim um líquido paralisante que lhe havia sido administrado. Embora não fizesse a menor ideia do tempo que demorava a fazer uma amputação, Carla tinha a distinta sensação de que o seu cirurgião iria demorar mais tempo do que o necessário.
As únicas palavras que ele lhe disse após concluir a intervenção foram um ameaçador: “Volto daqui a três horas.” Ameaçador porque Carla queria aceitar aquela frase como uma ameaça, uma acção que poder-se-ia não concretizar; e não o que era de facto: uma promessa.
O relógio continuava a funcionar. Não lhe interessava se mais depressa ou se mais devagar. A terceira hora estava a poucos segundos do fim e a porta abria-se devagar.
Carla fechou os olhos e esperou por uma morte rápida.»

Câmara dos Horrores, Edições Espiráleo, 2000

(O excerto que acabou de ler pertence a uma versão inicial deste romance. Se gostou, deixe o seu comentário, mas fica a ressalva que o texto final poderá não corresponder ao que acabou de ler.)

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2 thoughts on “Câmara dos Horrores – um excerto

  1. […] Quando escrevi este livro ainda morava em Lisboa, tendo visitado a Moita uma única vez, a propósito da tradicional Tarde do Fogareiro. Foi uma visita única, porém tão caricata que não tardou muito até começar a surgir uma história. Para quem conhece a Moita e o evento festivo referido, a história de Câmara dos Horrores não se liga directamente com nenhum desses factores; com excepção do geográfico, claro. Todavia, mesmo esse não é definitivo, pois a história que aqui apresento pode acontecer tanto na Moita, como em Faro, Braga ou Funchal. É uma história sobre o Mal e a sua adoração, sobre fanatismo e crença, sobre vida e morte. Foi uma história tão complicada de escrever como a anterior. Embora me sentisse mais experiente e estivesse a escrever sobre algo que germinara apenas da minha imaginação, criar uma história de terror é uma tarefa delicada. Por vezes é complicado equilibrar a balança do assustador com o gratuito; é preciso haver respeito pelo medo, caso contrário ele não funciona. Um excerto desta obra pode ser lido aqui. […]

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